Espaços de Inclusão

José Roca, 2014

Situando-se num lugar indefinido entre a Arquitetura, o Design e a Arte, o trabalho de Daniel Acosta questiona a proverbial inutilidade da arte. As suas esculturas/recintos/móveis convidam o espectador a um exercício ativo de participação, interação e diálogo.

Acosta invoca uma longa tradição de arquitetura e design que parte dos postulados modernistas (estandardização, uso de materiais industriais, coordenação modular) e, simultaneamente, foge deles através de linhas de fuga onde o rigor geométrico joga (e é posto em jogo) com formas orgânicas inesperadas. Em muitas das suas obras, Acosta faz referências eruditas à história do design moderno; no seu trabalho podem ver-se ecos de Charles e Ray Eames no uso criativo dos materiais industriais como o contraplacado (plywood), de Archigram, na ideia da arquitetura como organismo, de Joe Colombo, na criação de espaço-objeto, móveis de escala arquitectónica e recintos que confinam o espectador/usuário propondo-lhe usos ou múltiplas atividades no seu interior.

As referências de Acosta ao design moderno ajudam a situar o seu trabalho numa linha conceptual com uma tonalidade utópica onde o design e a arquitetura pareciam ter possibilidades reais de transformação da sociedade.

A distância histórica, permite-nos ver hoje os limites de tal pretensão. Nesse sentido, a aproximação de Acosta não está isenta de uma atitude crítica: o uso de certos materiais como a Fórmica, tem já a sua carga de anacronismo, vestígios de uma passado recente, no qual progresso e tecnologia pareciam ir de mão dada.

Ao referir-se ao seu trabalho, Acosta fala de disponibilidade funcional no sentido de que, se bem que os objetos permitem uma interação, não a exigem necessariamente.

Muitos destes trabalhos são o resultados de comissões e, nesse sentido, tentam resolver a partir do design uma situação funcional e espacial específica. São espaços de inclusão, abertos ao público que incentivam um uso sem normas e sem controlo. Muitos destes projetos estão em lugares públicos e o seu uso é completamente livre.

É normal que no seu interior se deem conversas entre pessoas que não se conhecem, pois a situação de intimidade estabelece um marco propício para que este tipo de interação e de espontaneidade. Por exemplo, no _SATOLEPKOSMOCAVE_(),a primeira estrutura da sua série de recintos/esculturas, situada no espaço público de Pelotas, propunha um espaço de observação do património arquitectónico da cidade.

Em _TOPORAMA_, realizado para o Centro Cultural São Paulo (), uma série de bancas com distintos tons de madeira com variações incrementais no seu tamanho, geram um recinto escultórico que pode ser objecto de observação, ou pode ser alterado pelos usuários em função das suas necessidades para reunir pequenos grupos de discussão e leitura enquanto esperam para entrar no cinema ou numa peça de teatro.

CAVURBA (2010), concebida para a exposição _PARALELA_, em São Paulo, situava-se ao ar livre, na entrada do recinto onde se deu a mostra. O público usava-a para conversar, fumar, esperar alguém antes de entrar para ver a mostra, sem ter a certeza se se tratava de uma das obras da exposição ou mobiliário urbano. Esta ambiguidade não preocupa Acosta, pelo contrário: a situação da peça no espaço público era essencial, pois se a obra estiver no interior do espaço expositivo teria sido lida como uma escultura e, provavelmente, a sua utilização tivesse sido mais próxima do ritual próprio da visita a arte (entrar, experimentar e sair) do que um uso real que foi o que teve.

Nem todos os projetos de Acosta são recintos autocontidos: alguns deles alteram o espaço de forma mais subtil , com os mesmos resultados. Um dos componentes da 8ª Bienal de Mercosul, em Porto Alegre, Brasil, da qual fui curador geral, era um espaço de encontro para os artistas, os mediadores e o público, que chamamos Casa M.

O coração deste projeto era a biblioteca que albergava o valioso arquivo da Bienal, que reflete a sua história expositiva.

Acosta concebeu _REPLIKASHELVESYSTEM_, a partir da qual realizou, posteriormente, uma versão em madeira industrial crua e a uma escala maior para o espaço FLORA, em Bogotá, Colômbia. Trata-se de uma biblioteca estritamente funcional (vista de frente, tem uma retícula completamente regular), mas com um jogo formal que alterava completamente a percepção do espaço: tanto na vista lateral como na planta, as superfícies verticais e horizontais que conformam a biblioteca, foram cortadas em zig-zag e encaixadas para que formem altos e baixos em ambos os sentidos.

O efeito óptico altera completamente o espaço sugerindo movimento ao variar a posição e segundo o ângulo de onde se vê.

Acosta complementou a biblioteca com uma viga aérea, uma coluna e um banco que ajudam a integrar o espaço circundante dentro da área de influência da biblioteca.

Acosta está consciente o potencial transformador da arte quando faz a transferência para a esfera do design, cuja necessidade de resolver em termos estéticos uma prioridade funcional, torna-o mais próximo do uso por parte das pessoas. Referindo-se a este assunto, Acosta afirmou: “ Todos eles, além de terem uma situação, digamos, mais escultórica, ou seja apresentam uma visualidade interessante, materiais, estruturação…também podem ser vistos como pequenas arquiteturas em função da cobertura. A possibilidade de se sentar aproxima-os do mobiliário urbano e do design. Quando estão sentadas entre outras coisas, as pessoas podem observar o ambiente em redor. São, então, como dispositivos que potencializam o ambiente indicando, no caso da cidade, espaços de exclusão”. A arquitetura escultórica de Acosta representa justamente o oposto, apresentando espaços de inclusão onde o espectador exerce o seu direito civil de expressão.


José Roca

Curador adjunto Estrellita B. Brodsky de Arte Latinoamericano, Tate Modern, Londres e Diretor Artístico da FLORA ars+natura, em Bogotá.